Jogos têm mais palavras que livros e isso não significa nada; mas às vezes é preciso dizer o óbvio

Recentemente, navegando pela linha do tempo do Twitter, me deparei com uma daquelas postagens que são óbvias iscas de engajamento para faturar dinheiro na plataforma. E, como são planejadas para tal, conseguiu chamar a minha atenção. Nela, o autor afirmava que games são superiores a livros, usando como argumento a quantidade de palavras contidas em cada um. Como exemplo, citou a trilogia O Senhor dos Anéis, que tem aproximadamente 481 mil palavras, e, entre outros jogos, citou Baldur’s Gate 3, com aproximadamente 2 milhões de palavras no total.

Embora seja uma comparação, no mínimo, esdrúxula, é importante rebatê-la, pois pode parecer uma conclusão sedutora para os incautos encontrados pelo caminho.

Captura de tela de uma postagem no Twitter que compara a quantidade de palavras em videogames e romances.
Fatídico tweet

Nem toda palavra conta uma história

A literatura, como as demais formas de arte, não está presa a conceitos pré-definidos e imutáveis. Sem contar as inúmeras, quase infinitas, variáveis às quais ela está sujeita, que vão desde a época até os arranjos de poder das sociedades, passando por experimentações de forma e de estilo.

Dito isso, um romance, como o citado O Senhor dos Anéis, é uma experiência linear. Ele tem começo, meio e fim definidos. Cada palavra escrita por Tolkien em sua trilogia foi deliberadamente e cuidadosamente colocada onde está. Em cada frase há intenção, curadoria e edição. O que está impresso em cada página é resultado de um processo guiado por inúmeras escolhas conscientes. Estas, por sua vez, guiam o leitor por um caminho de história específico, desejado pelo autor. Observe que isso é diferente da interpretação do leitor, que é individual, mas esse não é o ponto aqui.

Jogos, como Baldur’s Gate, mantendo-me no exemplo do provocador original, diferentemente de um romance, não se preocupa com um fluxo contínuo no que pretendem encontrar. Um jogo tem diversos compartimentos separados, frutos do comportamento e das decisões do jogador. Apenas uma tênue linha guia tenta sugerir uma narrativa coesa num universo de possibilidades, que, por sua vez, inflacionam sobremaneira a quantidade de palavras necessárias para contar sua história.

Como um sistema, um jogo possui falas exclusivas para determinadas raças, classes e atributos. Há diálogos pensados para diferentes escolhas e respostas para acontecimentos que podem não acontecer em determinada jogada. Isso sem falar dos diálogos ambientais, textos de tutorial, mensagens de interface e, em alguns casos, até livros completos dentro do jogo, como Skyrim, que possui dezenas deles. Claro, são quase como contos, não se comparam a romances reais, mas entram na contagem de palavras do jogo. Em geral, há muito volume, mas com profundidade fragmentada.

Ou seja, na prática, nenhum jogador, mesmo o mais engajado, será exposto a esse conteúdo integralmente. O total de palavras de um jogo é um máximo que, na prática, não representa uma experiência real para quem tem o controle na mão.

Comparando coisas incomparáveis

Nesse caso de comparação entre games e livros, a quantidade de palavras contidas em cada obra não é um indicador de qualidade narrativa. A qualidade de cada uma está na intenção do autor, seja ele um escritor tradicional ou um game designer, na estrutura de como tudo é entregue a quem consome a obra, leitor ou jogador, no ritmo, no significado, respeitando as óbvias diferenças entre as duas mídias. Livros e jogos são meios diferentes, com propósitos diferentes e estruturas diferentes.

Jogos não são piores, nem melhores. São apenas outra coisa, com seus pontos positivos e negativos. E são impressionantes por conseguirem reagir ao jogador de maneira que um livro não é capaz. Estes, por sua vez, oferecem ao leitor um controle absoluto de toda a narrativa pelo autor.

Formatos diferentes, métricas diferentes. Quantidade não mede valor. Nunca mediu. Afinal, se quantidade de palavras define o que é melhor, então podemos dar o prêmio para a Wikipedia ou para o Internet Archive, que tem bilhões de palavras em seus bancos de dados. E, seguindo essa lógica, a melhor música é a que tem mais notas e o melhor filme é o que tem mais quadros. Inclusive, o galpão da esquina da minha rua acabou de ser pintado. Certamente ele é uma obra melhor do que a Monalisa, já que consumiu mais tinta em sua produção.

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