Começo este texto confessando que me equivoquei em meus pensamentos iniciais sobre Keeper. Um jogo sobre um farol que anda por aí? Que loucura! Logo achei que se tratava de algo para a galerinha da menor idade. É claro que subestimei o significado das palavras Double e Fine, juntas, lá no cantinho da capa do jogo. Como ousei cogitar que algo vindo da fábrica de jogos comandada por Tim Schafer daria ao mundo algo que não fosse excepcional? Bastaram poucos minutos controlando um farol aparentemente vivo para assumir minha falha de caráter.
A poesia de controlar um farol
Como disse aí em cima, em Keeper você controla um farol. Você sabe, aquelas estruturas construídas à beira-mar para indicar às embarcações que estão próximas do litoral. Então, um desses. Achou estranho? Bem-vindo a Keeper. Um jogo estranhamente lindo vindo de um estúdio acostumado a jogos estranhamente lindos. Veja as capturas de tela ao longo deste texto e você verá esse farol com pequenas perninhas percorrendo um mundo maravilhoso enquanto ilumina tudo ao redor com sua potente lâmpada. Assim, sem contexto, parece algo bobo, como eu erroneamente achei. Não caia nesse erro de julgamentos prévios. Sentir o mundo em que o farol está é essencial para entender tudo completamente; ou, ao menos, sua interpretação dessa construção carregada de subjetividade.
Essa substância intimista que se extrai de Keeper se deve à ausência de diálogos, dublagem e textos no jogo. Tudo é apresentado sem palavras, apenas com a arte do mundo, do farol e de outras criaturas. A soma desses elementos evolui junto ao jogador na exploração das entranhas da criação de Lee Petty, líder criativo da Double Fine, mesmo sem essa comunicação convencional e direta. E isso funciona de forma magnífica.

Tudo começa quando o farol desperta num mundo que está muito além da presença humana. Seu instinto é salvar uma ave marinha que está sendo perseguida por uma escuridão parasitária chamada Definhação, que assola o ecossistema desse mundo pós-humanidade. Nesse resgate, o farol despenca, se despedaçando. Mas esse estilhaçar é apenas o início. Logo o farol ganha pequenas pernas, desajeitadas e instáveis. É quando o jogador toma o controle, perambulando desengonçadamente, se equilibrando e evitando novas quedas em seus primeiros passos, agora já em companhia de seu companheiro, a ave marinha resgatada chamada Ramo.
No início, é essa sua missão. Aprender a andar, se equilibrar em suas novas pernas. Quase um simulador de caminhada, permeado pela mecânica de iluminar pontos de interesse pela paisagem e, às vezes, enviar seu companheiro pássaro em direção a objetos interagíveis. Aqui a paciência é importante. Se alguma vez você usou o termo “jogo lento” de forma pejorativa para algum videogame, talvez eu seja portador de más notícias. Embora não seja um walking simulator, muito menos um visual novel, Keeper também não é um adventure convencional. O jogo tem um momento inicial gradual e contemplativo, quase uma obra lírica em forma de videogame. Você apenas anda, resolve quebra-cabeças simples e observa o mundo. Não há necessidade de medo de mortes ou outras punições. Aqui, o objetivo é outro, e o começo parece ser apenas a busca pela aceitação de tudo à sua volta.
Exploração, parceria e descoberta
Com a caminhada dominada, o equilíbrio deixa de ser obstáculo. A jogabilidade começa a surgir. A luz não apenas afasta a escuridão. Ela revela caminhos, acorda estruturas adormecidas no tempo e devolve vida a um lugar que parecia esquecido, dominado, prestes a sucumbir à Definhação. Seu amigo Ramo passa a ser suas mãos. Você está completo, um ser pleno em busca de entendimento e proteção do mundo. E entre a descoberta do porquê e do como, a ave te auxiliará na forma. Ela voa para puxar alavancas, remover objetos e encaixar itens com seu charmoso bico.

Agora, com o domínio dos movimentos e ações, você explora. No início, os caminhos são lineares. Depois, eles se ramificam, mas ainda de forma simples. Vá por um caminho até compreender o objetivo. Depois siga por outro e complete o necessário para prosseguir.. Com o tempo, arenas de áreas interligadas aguardam para ser exploradas. Todas as trajetórias são permeadas por suaves dicas visuais para manter constante a jornada da dupla e do jogador.
Fácil? Sim. Mas não desprovido de desafio. Em diversos pontos, explorei bastante para entender a lógica do desafio, as necessidades do momento e os pontos corretos a serem alcançados. O que não chega a ser frustração, longe disso, já que a beleza visual do mundo é tão grande que contemplá-lo nunca se torna cansativo. E a beleza não é apenas a estética do mundo, mas o método de interação com este mundo e suas transformações. E Keeper é repleto de transformações.
A evolução como narrativa
Aproximadamente do meio do jogo em diante, somos apresentados à primeira grande mudança do jogo. De repente, precisamos explorar mais o mundo ao nosso redor, de maneiras que não poderíamos imaginar lá no começo. A partir daí, Keeper entra em constante metamorfose. O farol se transforma, sofre ações do mundo, se adapta às necessidades da aventura de forma fantástica. Seja em terra, água, ar ou nos domínios subterrâneos, o farol seguirá a sua missão. Até a manipulação da passagem do tempo se torna essencial em determinado momento da jornada. É um jogo que surpreende de tempos em tempos, até o fim.

As mudanças do farol não são apenas uma recompensa tradicional de um jogo de videogame. Elas são, sobretudo, narrativas, mostrando ao jogador que ele lida com algo em constante evolução. Ao longo do jogo, os quebra-cabeças deixam de testar apenas sua capacidade de observar e passam a exigir execução mais precisa. Alternar entre manipulação de luz, interação com o ambiente e uso estratégico do Ramo se torna essencial. Tudo isso faz com que além das mudanças, o jogo aprofunde os elementos já conhecidos, mesclando as mudanças com familiaridade.
Considerações finais
Keeper é certamente um dos jogos mais bonitos que já joguei. São tantos momentos visuais maravilhosos que terminei com uma quantidade absurda de capturas de tela. As cores explodem e transbordam em todos os cantos, enquanto o design mantém tudo coeso. Se fosse possível emoldurar o jogo, ele seria digno das paredes de um museu.
Para não dizer que tudo é perfeito, vou pinçar duas coisas. Você não tem controle da câmera, com um direcional você movimenta o farol e com o outro você movimenta o feixe de luz. Ao se mover automaticamente, a câmera transmite um sentimento cinematográfico ao jogo, tornando-o ainda mais bonito. Exceto em pontos muito específicos, em que você instintivamente sente necessidade de movê-la um pouco para o lado para poder ver algum caminho ou entrada e se frustra ao perceber que não é possível.

Mesmo tendo dito que o jogo não possui diálogos ou texto, há informações textuais para o jogador. Tutoriais de controle e algumas ações que devem ser realizadas. Dada a quantidade irrisória de texto, é possível que a tradução para o português do Brasil tenha sido realizada por alguma ferramenta automática. O ato de atracar uma embarcação foi traduzido para “fixar”, um possível erro de contexto na tradução de “dock”. Nos créditos finais, é listada apenas uma equipe de tradução para o português de Portugal.
Quanto ao desempenho, em minhas mais de sete horas de jogatina, não notei nenhum problema ou quedas de fps. Mantive uma média de 56 fps, mas leve em consideração que joguei com configurações médias de qualidade de vídeo (e que eu não me importo tanto com isso). Imagino que os problemas relatados próximos ao lançamento tenham sido solucionados nas atualizações disponibilizadas no final do ano passado. Uma das vantagens de não correr atrás de lançamentos imediatamente. No entanto, devo relatar que o jogo crashou e fechou repentinamente uma vez em meio a um momento importante. Por sorte, nenhum progresso foi perdido.
Se você chegou até aqui sem ainda experimentar Keeper, recomendo que apenas jogue. É um jogo que confia no silêncio e no olhar do jogador, permitindo que cada um construa seu próprio significado para aquela jornada. Sem dúvida, uma indicação certeira para quem procura experiências menos convencionais. Aproveite essa obra de um momento em que o Xbox vendia a liberdade criativa de seus estúdios como chamariz para o Game Pass. Atualmente, com as reformulações do serviço, aumento de preços, mudanças de estratégia e pressão por maiores lucros, algo do quilate de Keeper não deve surgir no horizonte tão cedo.
Keeper
Double Fine, Xbox Game Studios
Keeper é uma experiência que confia no silêncio, na contemplação e na interpretação do jogador. Mesmo com pequenas limitações, é uma obra que transforma sua estranheza inicial em algo memorável.
Jogado no PC via Xbox.
